Texts


Lígia Afonso, Chamber of Execution, Galeria Carlos Carvalho, Lisbon, 2011

 

Tudo o que está em cima é como o que está em baixo

 

As miragens são imagens múltiplas formadas pela refracção atmosférica. Cada tipo de miragem envolve uma estrutura térmica específica na atmosfera, e uma localização particular dessa estrutura em relação ao observador. Numa miragem, quase todas as imagens aparecem ligeiramente acima da posição “verdadeira” ou “geométrica” dos objectos, deslocalização conhecida como “refracção terrestre”. Uma miragem é, por isso, fisicamente impossível de alcançar, e daí decorre a força simbólica da palavra que designa a intangibilidade do próprio objecto de desejo.

 

As miragens são fenómenos físicos reais e não ilusões de óptica, e por isso podem ser fotografados, mas não será a maior de todas as miragens acreditar que se domestica a miragem através da sua representação? As “Miragens” de Susana Gaudêncio são pedras: rochedos, penedos, ilhotes rochosos, ilhas continentais, arquitecturas circulares, conjuntos habitacionais. São arquétipos da pedra filosofal, servem de modelo à sua demanda intemporal e contêm nelas todas as quimeras e fracassos humanos.

Porque a ideia de “imagem espelho” [image mirroir] está na origem na palavra francesa mirage, e mesmo tendo em conta que o fenómeno não se relaciona, genericamente, com a reflexão (mas com a refracção), o termo “espelhismo” serve-lhe de designação popular alternativa. A Pedra Filosofal talvez seja, então, um prisma revolucionário, um rochedo paradoxal, racionalista e utópico, um sólido espelhado que procura reflectir tão-somente a verdade na miragem.

 

Mas numa miragem formada por vários objectos desejáveis, em que alguns aparecem invertidos, uns fora de escala e outros distorcidos, como determinar aquele que é verdadeiro? Como o discernir se todas as imagens são igualmente genuínas, correspondendo, cada uma delas, ao objecto inalcançável ele mesmo? E como prevenir o erro de interpretação da cena, indutor de experiências de ilusão óptica/utópica? Susana Gaudêncio pesquisa as fontes, pergunta mais do que responde, cria protótipos como ensaios de resposta e reinicia sucessivamente o procedimento alquímico, revendo os preceitos e alterando-os às vezes quase imperceptivelmente. 

 

Il est vrai qu'il s'est fait par le miroir ardent des dissolutions radicales (…)

Susana Gaudêncio toma como ponto de partida a promulgação póstuma, na revista L´Organisateur, da proposta de Henri de Saint-Simon, teórico fundador do socialismo cristão, para o estabelecimento de um novo sistema político, baseada na reformulação do Parlamento Francês, de maneira a criar uma organização social conforme e desejável ao tempo das Luzes, estruturada em torno da definição funcional de três chambers (das quais a primeira apresentasse, a segunda avaliasse e a terceira executasse), ao conjunto das quais sobrelevaria o poder supremo da indústria no desenvolvimento sócio-económico da França, a refundação do conceito de propriedade (sobre a égide da máxima produtividade), e uma concepção pacifista e anti-militarista com pretensões universalistas.

O projecto de Susana Gaudêncio desenvolveu-se faseadamente, em parciais homónimas às definidas por Saint-Simon, das quais Chamber of Examination [Chambre d´examen] foi o primeiro projecto apresentado, na Galeria Presença, no Porto, em 2010; seguido de Chamber of Invention [Chambre d´invention], que teve lugar no espaço Drawing Spaces, em Lisboa, no seguimento de uma residência ali realizada, em 2011.

 

Chamber of Execution (Chambre d´Exécution) é o momento que, agora tornado público na Galeria Carlos Carvalho, em Lisboa, finaliza o programa. Para Henri de Saint-Simon, os membros desta câmara, representantes dos diferentes ramos da indústria que a integrariam de forma quantitativamente proporcional à sua importância na produção nacional, seriam escolhidos de entre os mais ricos, não aufeririam ordenado, e seriam responsáveis pela execução de todos os projectos previstos e analisados pelas câmaras anteriores.

É das miragens, ilusões e desilusões inerentes ao pensamento progressista de Henri de Saint-Simon e de todo o significado histórico e contextual de que se investe a sua produção teórica, utópica e revolucionária, que se alimenta o projecto tripartido que agora se completa. Partindo, enquanto caso de estudo, da sua formulação textual programática, não raras vezes incoerente e apenas uma entre as milhares escritas por livres-pensadores numa época de efervescência propositiva, e associando-lhe outras fontes e referências históricas, mitológicas, literárias, artísticas ou cinematográficas fundamentais, Susana Gaudêncio gera uma iconografia das motivações e sentimentos revolucionários e devolve-a, como possibilidade ficcional, no subjuntivo presente.  

Serialmente desenvolvido em desenho, raciocínio que subjaz a toda a produção mesmo quando unicamente veiculada por estratégias de impressão, este projecto, como toda a obra de Susana Gaudêncio, toma a vídeo animação como dispositivo narrativo preferencial. Os paradoxos e as metáforas, as deslocações de sentido e as reformulações e inversões imagéticas nelas operadas, consubstanciam novas ficções que, ao contrário das miragens sempre constrangidas a uma pequena faixa de céu no horizonte, abraçam a totalidade do universo que Susana Gaudêncio escolheu criar. 

 

 

Paulo Mendes, Engenhos para uma revolução precária, at Drawing Spaces, Lisbon, 2011

 

 Um comentário à obra de Susana Gaudêncio

 

Uma fábrica.
Uma folha branca numa sala branca numa fábrica modernista que fabricava armas.
Negro, negro da grafite, linhas consecutivamente paralelas que produzem construções, construções intemporais, a construção das revoluções e das utopias, espaços de utopia.
Lumière devolveu-nos o real, Méliès deslumbrou-nos com a fantasia – a fantasia que ingenuamente acompanha as revoluções reais.
Edifícios ilusórios, lugares da construção abstracta do poder – económico político – as figuras da representação. A arquitectura como arena onde se sucedem os conflitos...
Os trabalhos artísticos são diagnósticos da nossa contemporaneidade. Os artistas colocam questões mas não lhes cabe dar respostas. Por vezes podemos fazer as perguntas de forma a provocar uma determinada resposta, mantendo livres os canais de circulação da discussão.
Muitas vezes os artistas contemporâneos apropriam-se de formas e formatos pré-estabelecidos para descodificar modelos e produzir outras correntes de realidade e narrativas alternativas.
A criação artística está historicamente ligada ao desejo de mudança e à alteração de paradigmas estéticos e sociais. Uma evolução contínua espelhada pelas vanguardas artísticas do modernismo. Falhado esse processo resta-nos a interferência em pequena escala, a experiência colectiva e de participação. Da utopia universal para o trabalho local.
(…)
Uma insurreição, já nem sequer somos capazes de ver onde é que isso começa. Sessenta anos de pacificação, de suspensão dos tumultos históricos, sessenta anos de uma anestesia democrática e de gestão dos acontecimentos enfraqueceram em nós uma certa percepção abrupta do real
A impressão de viver numa mentira ainda é uma verdade.
Quando falamos de Império, nomeamos os dispositivos de poder que, preventivamente, cirurgicamente, retêm todos os devires revolucionários de uma situação. Assim, o Império não é um inimigo que nos confronta. É um ritmo que se impõe, uma forma de actualizar a realidade até ao seu esgotamento.
Mais do que uma ordem do mundo trata-se do seu esgotamento triste, pesado e militar. 
Dois séculos de capitalismo e de niilismo mercantil culminaram na mais extrema estranheza, em relação a si mesmo, aos outros, aos mundos. O indivíduo, esta ficção, decompõe-se à mesma velocidade que se torna real.

(Engenhos para uma revolução precária foi o título da apresentação performativa que Paulo Mendes realizou através da leitura de um texto acompanhada simultaneamente pela  projecção de um vídeo.)

 

Susana Gaudêncio, Chamber of Invention, at Drawing Spaces, Lisbon, 2011

 

A Câmara de Invenções*

O Sentido do desenho.
    Este projecto mais do que preocupar-se com uma perspectiva formal ou conceptual da prática do desenho caracterizar-se-á, fundamentalmente, pela sua natureza narrativa e vontade ficcional. Tematicamente, irá desenvolver-se sobre um mapeamento de pensamentos utópicos.
Um espaço imaginado para ser Utópico precisa de ser a manifestação  de um desejo, mas a consequência inevitável de todos os projectos deste género é a destruição de um mundo para dar lugar à criação de outro. O Seu entusiasmo criativo vem do reconhecimento de que tanto a nossa imaginação como a nossa percepção são uma construção humana que pode ser alterada.
Partindo desta premissa e incutida por um método palimpséstico pretendo criar uma analogia entre o processo de construção imaginada de novas utopias, com um método de desenho por acumulação, sobreposição e alteração de informação.
“ (…) a animação não se constituiu em "movimentar desenhos", mas em "desenhar movimentos", ou seja , desenhar o próprio tempo, porque para a realização de um movimento  definir um tempo será sempre necessário.” Norman Maclaren.

Numa 2ª fase da residência tirarei partido formal e narrativo dos desenhos realizados e procederei à construção de diversos dispositivos inspirados na génese do Cinema e da Animação, nomeadamente, o Diorama, o Panorama, Prascinoscópio, o Fenacistoscópio, Zootrópio, etc.
Pretendo fazer movimentar desenhos através da sua interacção com esse mecanismos oriundos do Proto-Cinema, questionando a citação inicial de Norman Mclaren.”


*La chambre d’invention, foi um termo usado por Henri de Saint Simon considerado o precursor do Socialismo e das ciências sociais,  no seu projecto para a reorganização do Parlamento Francês. Esta câmara seria constituida por 3 secções, a 1ª por duzentos Engenheiros Civis, a 2ª por cinquenta Poetas e outros Criadores Literários, a 3ª por vinte e cinco Pintores, quinze Escultores e Arquitectos e dez Músicos.

 

Susana Pomba - Chamber of Examination at Presença Gallery, Oporto, 2010


Novos trabalhos, em desenho e vídeo, de Susana Gaudêncio (n. 1978, Lisboa) na sua primeira individual na Galeria Presença, no Porto.


“Chamber of Examination” é composta por duas novas vídeo-animações - “Cadmus” e “Harmonia” e duas novas séries de desenhos que abrem a exposição - “Chamber of Examination”, uma série de oito desenhos (grafite e lápis de cor sobre impressão em papel) e “Chamber”, uma série de três desenhos (grafite sobre impressão em papel).


O título desta exposição, “Chamber of Examination” é um termo utilizado por Henri de Saint Simon (1760 – 1825), parte do seu projecto de reorganização do Parlamento Francês. Saint Simon é considerado um precursor do Socialismo e das Ciências Sociais. Susana Gaudêncio, foca-se então, neste novo conjunto de trabalhos, na reflexão sobre definições de “Utopia”, criando novas “utopias”. Partindo de iconografia conhecida - de Thomas Moore, à Nova Atlântida do filósofo Francis Bacon ou a cenários de filmes de HG Wells - a artista aplica métodos de acumulação, sobreposição e alteração da informação, utilizando a serigrafia, impressão a jacto de tinta e desenho a grafite, para criar novos significados e visões.


As animações de Gaudêncio, que aparentam ao primeiro olhar uma linguagem por vezes tida como do imaginário naif revelam-se complexas e mostram as motivações sociais e políticas reflectidas pela autora, e também a sua direcção narrativa e ficcional. “Cadmus” e “Harmonia”, os novos vídeos apresentados, não são excepção. “Cadmus” mostra-nos a construção formal e programática de uma cidade feita a partir dos seus mapas e reorganização das suas necessidades básicas, como a energia e comunicação. “Harmonia” apresenta um “traveling” sobre a cidade de Luanda, alterado e modificado, onde o “skyline” parece por vezes estranho e os billboards anunciam as “Utopias” trabalhadas.

Novos espaços são também criados na série “Chamber of Examination” - a utilização de um grupo alargado de referências e formas, como a referida ilha de Thomas More, os cenários de filmes de HG Wells ou a Cidade do Sol do filósofo italiano Tommaso Campanella, por exemplo, são redefinidos espacialmente no papel, onde a artista intervém posteriormente com lápis de cor e grafite.


“Chamber”, uma série de três desenhos, mostra também a reorganização de espaços feitos a partir de partes de locais reconhecíveis: o Hemiciclo do Parlamento Europeu, a Câmara dos Comuns, a Câmara dos Lordes ou até o Hemiciclo da Assembleia da Républica Portuguesa. 

 

Sofia Gonçalves, in Press Release, 02.201 - Stout Cobweb, at Maus Hábitos, Oporto, 2010

 

 Stout Cobweb: A Política da Forma

 

Espaço é um receptáculo 

sem dimensão em que

o intelecto coloca a sua criação.

Que também eu possa colocar neste

a minha forma criativa.

Kasemir Malevich, folha de sala da exposição "The Last Futuristic Exhibition of Pictures"

 

Installed in a language that has already done so much speaking.

Maurice Merleau-Ponty em "Signs"

 

 No texto "Form as Social Commitment", Umberto Eco define artista de vanguarda como o único capaz de estabelecer uma relação significativa com o mundo em que vive, desafiando os sistemas tradicionais através da sua linguagem intrínseca—a forma. Para evitar as recorrentes homílias em torno dos valores morais na relação política/ética, as obras de vanguarda podem ser entendidas como resultado da contradição entre autonomia da obra de arte e intervenção social. Nesta antinomia reflectem-se tanto a estrutura do trabalho como as condições da sua recepção e é isto que se constitui como uma possível política da arte através da estética.

 Esta afirmação não é inédita no percurso de Susana Gaudêncio. Na obra da artista, a estética assume-se sempre como subtil questão ideológica. E a exposição agora apresentada não é excepção. Ao manipular directamente o imaginário colectivo da arte,Stout Cobweb desloca-se para domínios metafísicos ou ontológicos dos contextos artísticos, em particular para um dos seus modos de legitimação—o espaço expositivo. Stout Cobweb tem como ponto de partida formal e conceptual exposições e eventos realizados no século XX, em contextos de vanguardas, apresentações de manifestos, bienais e salões de arte. 

 Susana Gaudêncio opta por dirigir o seu mordaz comentário a dois momentos históricos de ruptura—a sala "Suprematism on Painting" de Kasemir Malevich na exposição "The Last Futuristic Exhibition of Pictures" (1915) e a instalação "Mile of String" de Marcel Duchamp na exposição "The First Papers of Surrealism" (1942). Nas serigrafias, estas "citações" estendem-se a outros momentos expositivos.

Mas o que significará, em Stout Cobweb, questionar a vanguarda (histórica)?

 Se as vanguardas promoveram cisuras determinantes com as artes clássicas ou académicas, Susana Gaudêncio propõe-se desmontar as vanguardas, ou dito de outra forma, todo e qualquer momento de instituicionalização na arte (se "o modernismo é a nossa antiguidade", o avant-garde é agora o nosso mainstream). Como processo que opera directamente na tectónica da arte, que corrompe o seu "estado", destabilizar assume-se como o tributo mais honroso às vanguardas.

Citar surge aqui não como reverência mas como subversão. A citação, como princípio estruturante desta exposição, é identificada desde logo no título da mesma. “Stout cobwebs” (Teias robustas) foi a expressão utilizada para descrever a instalação de Marcel Duchamp "Mile of String" na exposição retrospectiva "The First Papers of Surrealism" (1942). Na mansão Whitelaw Reid em Nova Iorque, Duchamp suspendeu 1,6 km de corda que envolviam toda a área expositiva, ocultando as obras presentes.

 Retirar o título da exposição da acção de Duchamp, corrresponde a uma tentativa da artista de voltar ao lugar, não mais para o rever como ficheiro morto, documental, mas literalmente restituindo-lhe o movimento, metáfora da sua acção. É esta urgência de reconstituição do valor performático das obras, de devolução da sua dinâmica perdida, que justifica a utilização da animação. 

 Cada uma das obras em Stout Cobweb é tautológica. Na reconstituição de "Mile of String", por exemplo, Susana Gaudêncio reconhece primeiro a motivação de Duchamp que, nas palavras do autor, toma a sua intervenção como um "combate ao segundo plano", as pinturas dos restantes artistas surrealistas. A artista radicaliza este manifesto ao anular por completo esse fundo, a ponto de nada mais restar que uma composição abstracta bidimensional. Na obra em que se anima a sala de Malevich, a tensão é provocada pelo absurdo das formas que caem, vítimas pura e simplesmente da lei da gravidade. Os quadrados como módulos quase religiosos em Malevich, não são agora mais que um amontoado de formas no chão.

 O conjunto de serigrafias explora os príncipios de sedimentação e transporte das iconografias. Aqui, as formas de outras exposições instalam-se em espaços aparentemente estranhos aos da sua origem. A migração das formas expõe relações invisíveis entre momentos históricos distintos, apenas revelados pelas testemunhas fugazes dos espaços—os espectadores.

 Stout Cobweb encontra nos entre-espaços da história, possibilidades para uma ficção. Ao revelar com humor as "armadilhas" da história, desmonta os momentos de conversão da vanguarda em convenção. Como palimpsestos dos manifestos originais, a atitude das obras de Susana Gaudêncio é acima de tudo uma homenagem que extingue a neutralidade provocada pelo peso da história. Com a sátira constrói-se o tributo.

 

Miguel Amado in Artforum, 11.13.2009 - Houyhnhnm, at ISE Foundation, New York

 

 For her solo show last January at Lisbon’s Carlos Carvalho Gallery, the Portuguese, New York–based artist Susana Gaudêncio presented, among other pieces, Building Icons (Structures) (all works 2009), which is also on view in this exhibition, her New York debut. In that video animation, the artist blends pictures of laborers and of iconic modernist constructions, including Buckminster Fuller’s futuristic Montreal Biosphère of 1967. Merging the fields of design and production, Gaudêncio examines the Industrial Revolution’s division of labor—rooted in the separation of the intellectual and manual realms—and the social stratification it has generated in capitalist economies.

 In Houyhnhnm, Gaudêncio continues to animate digitally manipulated, colorful renderings drawn from media photographs or found-video footage. This work’s title is inspired by the Houyhnhnms in Jonathan Swift’s classic novel Gulliver’s Travels (1726), a community that, favoring reason over emotion, is contrasted with the Yahoos, a group of savage, humanlike creatures. The Houyhnhnm society is a metaphor employed in Gaudêncio’s vision of the world, wherein utopia and dystopia are distorted mirror images of each other. Here, the artist renders propaganda slogans, political figures such as Margaret Thatcher, and demonstrations, while alluding to the passionate, convoluted history of radical thought.

 Five additional works on view compose the series “Crowd Shape,” which complements the artist’s investigation of idealistic themes. Black-and-white, newspaper-style photographic prints of multitudes in public spaces are partially covered by facades of postmodern buildings. For example, in Crowd Shape #1, the artist overlays a gathering in a town square with various architectural structures in a manner that recalls Constructivist imagery. With a delicate treatment of aesthetic trends and elaborate references to politics, Gaudêncio smartly addresses progressive grand narratives through the lenses of mass psychology and cultural tradition.

 

Raphael Taylor in Press Release, 10.23.09 - Houyhnhnm, at ISE Foundation, New York

 

 The ISE Cultural Foundation, within the front space of its Soho location, presents ¨Houyhnhnm,¨ a solo exhibition of recent work by Portugese artist Susana Gaudencio. 

Living and working in New York, Gaudencio creates and exhibits intricate animations.  Her works are made by altering, collaging, and montaging found footage and imagery -- a process that both indulges in aesthetic allusions, and engages social relationships.  

 Houyhnhnms are the acutely rational race that Jonathan Swift envisages as archetypes of purity in Gulliver's Travels.  The reference serves as a counterpoint to Gaudencio's most recent animations, where loaded societal icons inhabit a strange world. Urban spaces, amassed crowds, and orators are rendered in full cinematic action, alongside the colorful and idiosyncratic excesses caused by the animation process. 

Gaudencio's work involves a cyclical transformation, from the digital source-footage, to the physical print-out, and back again.  It collapses the space between otherwise disparate processes.  But perhaps most importantly, it addresses the tensions between political reality, and expressive illusion.   .

 

 

Rita Palma in Press Release,01.2009 Blocking at Carlos Carvalho Arte Contemporânea, Lisboa

 

 E se um dia parasse para olhar?
 

  “Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: 
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de 
desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de 
humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.”

 Bertold Brecht

 

 Blocking(1) é uma viagem iconográfica que nos permite descobrir a paisagem, a nossa urbanidade, mas também as pessoas e os seus gestos sob a perspectiva cinéfila de quem desconstrói e redesenha, detalhadamente, novos lugares. Susana Gaudêncio apresenta-nos, nesta sua primeira exposição na Galeria Carlos Carvalho, um outro espaço público, os seus actores e protagonistas, seja em praças ou terreiros, edificados ou passeios, a artista transporta-nos para habitats inéditos, híbridos urbanos, livres de estereótipos, por vezes quase descontextualizados e invertidos, mas que nos permitem reflectir sobre que outros valores emergem e imperam nas sociedades contemporâneas.

 Não se trata de um manifesto sobre gosto, não se trata de uma análise ou enunciado de meros ícones arquitectónicos, trata-se de reinterpretar cenários, geometrias e volumes, fenómenos culturais massificados, subtraindo ou adicionando-lhes novos layers que, inevitavelmente, reflectem a sua leitura pessoal, social e política da construção das nossas cidades.

 Através da animação e desenho, ferramentas que vem explorando regularmente e com as quais se permite equacionar o seu próprio papel enquanto artista, Susana Gaudêncio trabalha as imagens base que antecipadamente recolheu e revela-nos estruturas suspensas, sucessão de planos, cheios, tensões, lastros de movimento e de ausência e, em oposição, permite-nos que isoladamente possamos aceder aos personagens anónimos que construíram e constroem as suas narrativas.

 Este projecto contou ainda com a participação do artista Bernhard Gal que, ao longo do seu percurso profissional, tem vindo a explorar a relação entre som, luz, vídeo e que, em colaboração com Susana Gaudêncio, compôs o registo áudio da animação apresentada. 

 

[1] Termo referenciado em Teatro como registo do posicionamento e movimento dos actores em palco.